sexta-feira, 15 de abril de 2011

Desabafos de um ciclista urbano

Depois de algum tempo em que venho fazendo da bicicleta o meu meio de transporte pessoal na cidade, é curioso observar que por motivos diversos as outras modalidades de transporte não são verdadeiras alternativas. Para além das despesas associadas quer ao carro quer aos transportes públicos, a bicicleta permite-me poupar tempo e paciência. E quando se toma real consciência disso é quando ela nos falta...

De vez em quando, uma bicicleta precisa de alguma manutenção. E se andamos nela todos os dias, faça chuva ou faça sol, isso pode ser mais frequente do que desejaríamos. Uma afinação aqui, lubrificação ali, uma ou outra peça que empena ou que se vai desgastando... O ideal seria ter uma boa oficina perto do local de trabalho que fizesse esse serviço durante o dia, de modo a termos a bicicleta pronta a usar na hora de regressar a casa.

Pode até parecer um cenário um tanto ou quanto idealista, mas a verdade é que isso só não acontece por falta de mercado, ou seja, porque o número de bike commuters ainda é insuficiente para garantir a rentabilização do investimento. Aliás, em cidades como Londres, em épocas passadas em era generalizado o uso da bicicleta por parte da população, existiam mesmo essas oficinas junto às empresas, para que os trabalhadores não ficassem sem o seu transporte pessoal - reduzindo assim atrasos e absentismo.

Mas, voltando à nossa por vezes triste realidade, as lojas de bicicletas em Portugal estão ainda, na sua maioria, especializadas em equipamentos de desporto e/ou lazer. As bicicletas utilitárias são um nicho de mercado um tanto ou quanto residual e, provavelmente, pouco lucrativo. A modos que não só é difícil encontrar à venda uma boa variedade de bicicletas urbanas com o equipamento necessário (luzes, refletores, guarda-lamas, proteção de corrente, bagageira, dínamo), como é também frequente não haver nas oficinas certas peças de substituição para estas bicicletas.

Foi o que me aconteceu recentemente. A minha bicicleta tinha uma folga no movimento pedaleiro, pelo que decidi substituir a peça antes que ficasse empancado na estrada numa hora crítica. Substituíram o eixo pedaleiro e lá pude voltar às ruas, mas a coisa não ficou lá muito bem. Volta e meia, a corrente deixava de agarrar, impedindo o uso normal em subidas bem como o arranque em esforço após uma paragem nos semáforos, por exemplo. A modos que lá tive de levar o meu veículo novamente à oficina...

Segundo entendi, a peça que haviam utilizado era alguns milímetros mais comprida, pelo que o prato pedaleiro ficava um pouco deslocado da sua posição normal. Explicaram-me que havia dois tamanhos que usavam frequentemente, este e um outro que era pequeno demais e que não dava neste quadro. Ou seja, é preciso esperar dia após dia por uma peça que, digo eu, devia fazer parte do stock de qualquer oficina especializada em bicicletas.

Começo a pensar que o principal obstáculo ao uso da bicicleta como meio de transporte neste país é o tempo que demora uma simples reparação... Ou, dito de outra forma, preciso de uma bicicleta suplente!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A vida num automóvel

De vez em quando, chega a hora de fazer algum tipo de manutenção na bicicleta e volto a ter a oportunidade de sentir aquilo que tenho andado a perder por não usar o carro na cidade. Que é como quem diz...

Durante mais de um ano, raramente tive de procurar e/ou pagar um estacionamento, raramente precisei de ir a pé quase metade do caminho, raramente tive de ficar preso no trânsito....

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Pedalando em Lisboa e Margem Sul do Tejo: Raquel Guerreiro

Raquel Guerreiro tem 25 anos (mas muita gente lhe pergunta se tem 18), e utiliza diariamente a sua pasteleira ninja em conjunto com os transportes públicos para se deslocar na zona de Lisboa. Vejamos o que tem para nos contar...

Há quanto tempo vais de bicicleta para o trabalho/universidade?
Há cerca de 10 meses mais coisa menos coisa.

Porque decidiste começar a ir de bicicleta?
Há três anos visitei a Dinamarca e fiquei espantada com o modo de vida deles, em particular com o uso da bicicleta. Quando voltei a Portugal não pude implementar aquilo que tinha visto, pois vivia muito longe de onde estudava/trabalhava. No ano passado fui viver para mais perto e assim que tive a vida organizada passei a usar a bicicleta e os transportes públicos.

Que distância percorres nesse percurso? Que tempo demoras?
Faço 6 quilómetros até ao barco do Seixal (entre 15 a 25 minutos, depende da pedalada) e depois menos de um quilómetro entre a estação de comboio da Cruz Quebrada até ao meu destino (o tempo depende dos semáforos, mas nunca mais de 4 ou 5 minutos).

Quais têm sido, no teu caso, as vantagens práticas de utilizar a bicicleta como meio de transporte preferencial?
Tantas! Poupo centenas de euros por mês, ganho saúde, mantenho-me em forma, não poluo, tenho menos stress, tornei-me mais consciente da minha cidade, formei um blog, participo em atividades relacionadas com mobilidade sustentada, conheci imensas pessoas e fiquei muito mais pro-ativa em questões relacionadas com a cidadania e a qualidade de vida em Portugal.

De bicicleta só quando dá sol… ou também quando o tempo é mais agreste?
De bicicleta sempre que posso. Quando o tempo é agreste sou corajosa até certo ponto, o frio, nevoeiro, chuva moderada ou calor intenso nunca me incomodaram, mas quando está muito vento ou muita chuva deixo a bicicleta em casa.

Que tipo de bicicleta tens?
Tenho uma pasteleira, que é excelente para transportar coisas. Costumo dizer que ela é uma pasteleira ninja pois vem equipada com suspensões, pneus mais largos e 6 mudanças para facilitar nas subidas. Uso-a sempre que posso para ir trabalhar e para ir para a faculdade.

Qual o equipamento que usas no teu dia-a-dia de ciclista?
Uso a minha roupa normal e capacete nem vê-lo! Sou uma forte aderente do cyclechic. Na verdade até já reparei que quando vou de bicicleta tenho tendência para me vestir um pouco melhor. Em termos de iluminação pus uma luz na traseira para ser mais visível de noite.

Qual a tua ocupação atual?
Trabalho num laboratório de fisiologia com atletas de alto rendimento e estou a tirar um mestrado em Treino de Alto Rendimento.

O que dizem as pessoas quando lhes contas que vais regularmente de bicicleta para o trabalho/universidade?
Já tive as mais diversas reações. Olhares de pena, comentários engraçadinhos, comentários insultuosos, reações de admiração, espanto e até já convenci umas quantas pessoas a experimentarem. Depende muito de com quem falamos.

Tens alguma peripécia relacionada com o uso da bicicleta, divertida ou interessante, que queiras partilhar?
Muitas! A mais surrealista foi um grupo fotógrafos que me “apanharam” e perguntaram se me podiam fotografar com a minha bicicleta. Eu disse que sim e em plena rua fizemos uma sessão fotográfica. Foi muito engraçado, senti-me uma estrela!

Praticas algum tipo de desporto, para além do teu percurso diário de bicicleta?
Sempre fiz muito desporto e não consigo conceber a minha vida de outro modo. Pratiquei taekwondo durante 13 anos, pelo meio fiz kickboxing, muay-thai, natação, basquete, ténis… Faço algo sempre que posso e gosto de variar.

O que pensas da tua cidade, no que se refere às infraestruturas rodoviárias existentes e à relação com os ciclistas?
As infraestruturas são poucas e muito fraquinhas e a relação com os ciclistas é muito pobre. No entanto tenho que admitir que vejo esforço por parte de certas pessoas e instituições para melhorar este panorama, e pouco a pouco lá se vai conseguindo qualquer coisa.

domingo, 3 de abril de 2011

O assunto polémico dos capacetes para ciclistas

Usar capacete ou não usar - e porquê. À primeira vista, parece ser óbvio que o capacete é uma mais-valia na cabeça de qualquer ciclista, podendo salvar-lhe a vida. Mas, ao contrário do que nos dita o senso comum, a investigação sobre os capacetes de ciclismo é controversa, havendo numerosos estudos que põem em causa a utilidade desses capacetes, sobretudo no contexto do ciclismo utilitário.

Por um lado, uma boa parte dos capacetes são incapazes de proteger eficazmente a cabeça de impactos violentos. Por outro lado, não só contribuem para desencorajar a utilização espontânea da bicicleta, como também tendem a incentivar comportamentos de risco - da parte dos ciclistas e dos automobilistas. Há assim investigadores que defendem que o uso do capacete pode na verdade contribuir para aumentar a probabilidade de ocorrência de acidentes com os ciclistas que os utilizam.

Trata-se de um tema aparentemente insípido, mas que tem despoletado em alguns países discussões bem acesas sobre se o uso do capacete por ciclistas deve ser facultativo ou obrigatório por lei. Em regiões onde o seu uso é obrigatório, o uso da bicicleta tende a diminuir, e os programas de aluguer de bicicletas públicas tendem a fracassar. Afinal, quem é que vai sair à rua com um capacete debaixo do braço, só para a eventualidade de decidir alugar uma bicicleta?...

No site cyclehelmets.org é possível encontrar alguma informação interessante e relevante sobre esta temática.

Porto realiza esta semana um evento oficial Cycle Chic™

“OPORTO CYCLE CHIC, é um evento onde o fato de treino é proibido! dirigido a todos aqueles que a cada momento da sua vivência cosmopolita e social se preocupam não só com a imagem mas também com a saúde.” Tu que és FASHION traz a tua bicicleta e vem pedalar pela marginal do Porto connosco.

O evento Oporto Cycle Chic está agendado para o próximo sábado, dia 9 de abril. O ponto de encontro é o Cubo da Ribeira às 15h30 e o percurso segue daí até à Foz. O convite é extensível a todos quantos desejem participar no encontro, mesmo que não tenham bicicleta. Quem não tiver bicicleta, pode levar uma emprestada ou até mesmo alugar.

sábado, 2 de abril de 2011

Reportagem na RTP sobre o uso da bicicleta no Porto

A RTP transmitiu estes dias no Jornal da Tarde uma reportagem sobre o uso crescente da bicicleta como meio de transporte na cidade do Porto. Como anfitrião principal, aparece o Sérgio Moura, arquiteto de profissão e fotógrafo nas horas vagas, e também ele um convicto ciclista urbano.

País - Cada vez mais pessoas começam a ir de bicicleta para o emprego - RTP Noticias, Vídeo

Voluntários da MUBI ajudam ciclistas menos experientes a pedalar na cidade

A MUBI - Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta acaba de lançar em Lisboa a iniciativa Bike Buddy, com o objetivo de ajudar os ciclistas menos experientes a começar a pedalar na cidade.

O projeto Bike Buddy funciona em regime de voluntariado e conta já com a colaboração de 16 voluntários, todos eles utilizadores habituais da bicicleta como meio de transporte. A ideia consiste em colocar à disposição de cada ciclista um bike buddy, isto é, um utilizador experiente de veículos de duas rodas disponível para ajudar a selecionar os melhores percursos e a acompanhá-lo nas suas primeiras deslocações na cidade.

Espera-se assim ajudar as pessoas a vencer o medo do trânsito automóvel, ensinando as competências necessárias para que os novos ciclistas possam circular com segurança nas ruas de Lisboa.

A iniciativa arrancou ainda esta semana em Lisboa, mas já se fala na possibilidade de a alargar a outras cidades, se for possível reunir voluntários em número suficiente.

É bom ver a comunidade a organizar-se de forma a prestar apoio prático a quem dele precisa. É muito frequente falarmos com pessoas que nos dizem "eu também devia deixar o carro e ir de bicicleta", mas que em última análise têm receio de enfrentar o trânsito automóvel, o cansaço das subidas ou, simplesmente, o desconhecido.

Parabéns à malta da MUBI por esta excelente iniciativa!

Nota: Saiu ontem notícia sobre este projeto no Público.pt e anteontem no Sapo Notícias (via Lusa).